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PROBLEMA: Os cristãos evangélicos defendem a interpretação literal da Bíblia. Insistem em dizer que ela deve ser entendida em seu sentido normal, histórico e gramatical, e não num sentido oculto, místico ou alegórico. Tal postura acarretaria, por exemplo, no caso dos Evangelhos, o liberalismo, que negaria a realidade histórica da vida, morte e ressurreição de Cristo. Entretanto, muitos evangélicos não tomam o Cântico dos Cânticos de forma literal, mas lhe dão um significado alegórico ou espiritual. Não há uma contradição nisso?

SOLUÇÃO: Há basicamente três interpretações do Cântico dos Cânticos: a literal, a alegórica e a prefigurativa. De acordo com a interpretação literal, trata-se de uma história verdadeira sobre o amor do rei Salomão por sua esposa e o amor dela por ele, embora os eruditos não concordem entre si a respeito de quem era essa esposa, entre as 700 mulheres que ele teve, além das 300 concubinas (1 Rs 11:3). Alguns dizem que ela era a “filha do faraó” (1 Rs 11:1); outros sugerem que era uma humilde virgem de nome Sulamita. Todos os que assumem esta posição, porém, declaram ser uma história real do rei Salomão, sobre o caso de amor que ele teve com uma mulher. Acrescentam ainda que o livro tem o propósito de exaltar a beleza, a pureza e a santidade do matrimônio. Aqueles que optam pela interpretação alegórica do livro esquivam-se das partes da história com descrições mais sensuais. Preferem ver um sentido mais profundo, tal como o amor de Yahveh pelo seu povo Israel (cf. Oséias) ou, numa amplitude maior, o amor de Deus por seu povo em geral. Muitos cristãos preferem uma interpretação prefigurativa deste Cântico, vendo-o como uma prefiguração ou um tipo de Cristo e o seu amor pela igreja (cf.Ef 5:28-32). Esta posição é também contrária a tomar-se a história literalmente, insistindo, porém, que há um sentido espiritual mais profundo. Qualquer que seja a aplicação que esta história de amor possa ter a respeito do relacionamento de Deus com o seu povo, ou do amor de Cristo pela sua igreja, a interpretação literal parece ser a melhor devido a duas razões básicas: Primeiro: é inconsistente alegorizar esta história e ter uma posição firme quanto a considerar os Evangelhos e outras partes das Escrituras de forma literal. Segundo: o entendimento literal não contradiz nenhum outro ensino das Escrituras; pelo contrário, os demais ensinos são complementados dessa forma. Deus instituiu o casamento (Gn 2:23-24). Deus criou o sexo e o deu aos seres humanos para desfrutá-lo dentro dos limites do matrimônio (Gn 1:27; Pv 5:17-19). Paulo declarou que o sexo deve ser exercido apenas no casamento monogâmico (1 Co 7:1-5). Timóteo foi informado de que o sexo dentro do casamento não deveria ser proibido (1 Tm 4:1-4), e que Deus “tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento” (1 Tm 6:17). O Cântico dos Cânticos de Salomão é um belo exemplo de um romance entre duas pessoas que verdadeiramente existiram, o qual exalta a visão bíblica do sexo e do casamento. Como o casamento, de acordo com Paulo, é uma figura do amor de Cristo por sua noiva, a Igreja, não há razão por que não possamos considerar esta história real de amor como uma ilustração do amor de Deus. Entretanto, dizer que a história não é literalmente verdadeira, ou que ela é um tipo de previsão do amor de Cristo pela Igreja, isso vai além do que o texto está dizendo.