Paulo1

PROBLEMA: Paulo refere-se a uma epístola anterior escrita por ele aos coríntios, da qual não se tem conhecimento. Mas desde que ela foi escrita por um apóstolo a uma igreja e continha instruções espirituais de quem possuía autoridade, tal carta deve ser considerada inspirada. Isso levanta a seguinte questão: Como pôde então Deus permitir o extravio de uma epístola inspirada.

SOLUÇÃO: Há três possibilidades nessa questão. Primeiro, pode ser que nem todas as cartas apostólicas tenham tido o propósito de estar no cânon das Escrituras. João dá a entender que houve muitas coisas mais, que Jesus fez, mas que não foram registradas (20:30; 21:25). E possível que Deus não pretendesse que essa assim chamada “carta perdida” aos coríntios integrasse o cânon dos livros que foram preservados para a fé e prática das futuras gerações, como aconteceu com os demais 27 livros do NT (e com os 39 do AT). Segundo, alguns crêem que a carta referida (em 1 Co 5:9) pode não estar perdida afinal, mas ser uma parte de um livro existente na Bíblia. Pór exemplo, ela poderia ser parte do trecho que conhecemos como sendo 2 Coríntios (capítulos de 10 a 13), que alguns acreditam ter sido posto junto com os capítulos de 1 a 9. Para isso baseiam-se no fato de que os capítulos de 1 a 9 têm notoriamente um tom diferente em relação ao restante do livro de 2 Coríntios (capítulos de 10 a 13). Isso pode indicar que o trecho foi escrito numa ocasião diferente. Além disso, apontam para o uso da palavra “agora” ( em 1 Co 5:11), em contraste com um implícito “então”, quando o livro anterior fora escrito. Observam também que Paulo refere-se a “cartas” (no plural) que ele tinha escrito, em 2 Coríntios 10:10. Terceiro, outros acreditam que em 1 Coríntios 5:9 Paulo esteja se referindo ao presente livro de 1 Coríntios, ou seja, ao mesmo livro que ele estava escrevendo naquela hora. Em apoio a isso observam o seguinte: 1) Embora o tempo verbal grego empregado aqui, o aoristo (“escrevi”), possa referir-se a uma carta do passado, ele poderia referir-se também ao mesmo livro. Isso é chamado de um “aoristo epistolar”, porque se refere ao mesmo livro em que ele está sendo usado. 2) Em grego, o aoristo não é um tempo do passado como tal. Ele refere-se ao tipo de ação, e não propriamente ao tempo da ação. Ele identifica uma ação completa, que pode até mesmo ter levado muito tempo para ser realizada (cf. Jo 2:20). 3) tempo aoristo com freqüência implica uma ação decisiva, sendo que no caso Paulo estaria dizendo mais ou menos o seguinte: “Estou escrevendo-lhes em caráter decisivo…” Isso certamente está de acordo com o contexto dessa passagem, na qual ele está instando a Igreja a tomar uma medida imediata de excomungar um membro impuro. 4) Outro “aoristo epistolar” foi usado por Paulo nessa mesma carta, quando ele disse: “Não estou escrevendo na esperança de que vocês façam isso por mim” (1 Co 9:15, NVI). 5) Não há absolutamente indicação alguma na história da igreja primitiva de que uma tal carta de Paulo, além das conhecidas 1 e 2 Coríntios, tenha existido. A referência em 2 Coríntios 10:10, dizendo: “as cartas… são graves”, pode significar tão somente “o que ele escreve é grave”. E o “agora” de 1 Coríntios 5:11 não indica necessariamente que era uma carta posterior. Esta palavra pode ser traduzida por “não”, ou como uma expressão de ênfase: “o que eu digo é que…” (TLH e, com pequena variação).