Era uma manhã fria e ensolarada. O branco da neve ainda estava lá fora. Da janela podia-se ver uma linda paisagem marcada pelos restos de flocos que cairam no dia anterior. Dentro de casa eu fazia um desses serviços caseiros, e enquanto trabalhava dava asas aos meus pensamentos, os quais me levaram a uma passagem das Escrituras que dizem: “Sabe, porém, isto: nos últimos dias, sobrevirão tempos difíceis” (2 Tm 3.1). Mas, por quê tempos difíceis? O contexto imediato do versículo responde: Os homens seriam amantes de si mesmos, arrogantes, atrevidos, jactanciosos e avarentos… Porventura este não é um retrato da nossa sociedade em pleno século XXI?

Inquiri com a minha mente se essa avaliação dos nossos dias poderia afetar o cristianismo ou se os cristãos se associariam a essa situação presente transformando-se em pessoas jactanciosas, atrevidas, arrogantes, amantes de si mesmas e avarentas. Constatei, com pesar algumas verdades, mas continuei inquirindo: Por quê pessoas que se dizem cristãs agem de forma contrária aos ensinos de Cristo? Por quê sempre tentam levar vantagem em tudo? Por quê não são corretas nos seus negócios? Por quê são taxadas de mal pagadoras? Será que foram picadas pelo vírus denominado “Reino deste mundo” sobre o qual Jesus disse que não tinha nada a ver com Ele?

Com tristeza podemos verificar que isso é uma realidade dentro do cristianismo. Entretanto, é preciso salientar que existem verdadeiros cristãos. Esses que podem ser chamados de seguidores de Cristo. Esses que não estão dispostos a negociar a verdade e que tomam como bandeira a Palavra de Deus.

Voltando à carga indagamos: Como sabemos que esse vírus que abordamos acima aportou no cristianismo? Para responder a essa questão basta analisar as mensagens desse novo evangelho (Gl 1.6) que, frequentemente, são terapêuticas, com ênfase na realização pessoal, salientando que o Senhor pode oferecer o que a pessoa necessita e ajudando-a na solução dos seus problemas. É pragmática e individual, mais centrada na redução de stress do que em salvação. Fala-se sobre sentir-se bem, não sobre ser bom. É centrada no corpo e na alma e não no espírito. Evita-se o ensino profundo das Escrituras em favor de mensagens positivas que são destinadas a fazer com que as pessoas se sintam bem consigo mesmas e promovam a celebração da recuperação e da satisfação pessoal. Prega-se uma qualidade de vida melhor atrelada a tudo o que dinheiro pode oferecer. A isso chamamos de Teologia da Prosperidade.

Se juntarmos esse produto que é oferecido em boa parte de igrejas que se denominam cristãs, que tipo de cliente pode ser alcançado? É como se Cristo fosse uma mercadoria barata colocada na prateleira do supermercado chamado “Aqui tudo passa” e na outra ponta parece que estamos a ouvir o famoso dito: O que realmente importa é o “aqui e o agora”. Para uma grande maioria é muito bom ouvir que Deus vai abrir portas, nos dar um carro novo, uma casa nova, uma saúde de ferro e resolver as nossas mazelas. Qual é o custo? Só em pensar, me arrepio, mas não de frio. O evangelho está mercantilizado. Pessoas estão fazendo negócios com a Palavra de Deus, mas um dia ouvirão as palavras de Jesus registradas em Mateus 7.21-23.

Assim, que tipo de cristão essa mensagem contemporânea está formando? Sem dúvida, não são seguidores de Jesus. Faço menção aqui a um homem grego chamado Luciano que viveu no século II e era um acirrado crítico do cristianismo. Ele observou os cristãos e os seus hábitos de vida e veja o que ele escreveu:

“Essas criaturas mal orientadas começam com a convicção geral de que são imortais para sempre, o que explica o desprezo pela morte e a consagração voluntária, que são tão comuns entre eles; também foi inculcado neles por seu legislador original que são todos irmãos, desde o momento em que se convertem e negam os deuses da Grécia, adoram o sábio crucificado e vivem segundo as suas leis. Tudo isso eles aceitam pela fé, tendo como resultado o desdém pelos bens mundanos, considerando-os meramente como propriedade comum”.

Luciano confirma que os cristãos tratavam-se como irmãos e compartilhavam livremente entre si as suas posses. A demanda entre eles era de que a prosperidade de um, era a prosperidade de todos. Aceitamos que os costumes e cultura eram diferentes, mas algo aqui ressalta como marca e identidade do verdadeiro cristão; a saber, o AMOR.

A partir da afirmação e pergunta que figuram como título neste texto – SOU CRISTÃO! VERDADE? – podemos fazer um exame introspectivo da nossa vida cristã. Esse foi o meu objetivo, atingir o seu coração e levar você a pensar a respeito. Sim, você que se diz cristão ou seguidor de Jesus Cristo, pense: Se o Senhor estivesse em seu lugar aqui na terra, como Ele agiria? Será que a preocupação dEle seria a busca de coisas terrenas? E quando Ele estivesse nas igrejas a mensagem que Ele gostaria de ouvir seria aquelas do tipo: “Deus é contigo, meu irmão. Ele vai abrir portas pra você. Vai tirar do ímpio pra te dar. As bênçãos virão abundantemente sobre a sua cabeça (tudo isso, é claro, desde que você seja um contribuinte fiel)”. Será?

Ao terminar, faço uma analogia com a seguinte frase: “O simples fato de um rato estar dentro de uma lata de biscoitos, não faz dele um biscoito”. Isto equivale a dizer que nem todos que estão nas igrejas são verdadeiros cristãos.

Minha expressão nestas linhas parece um grito de agonia, mas como disse o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 9.16: …”Sobre mim pesa essa obrigação”.

Àquele que sonda mentes e corações, toda glória!

Pr. Natanael Gonçalves