Servos ou amigos?

João 15:12-17

O meu mandamento é este: que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei. Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer. Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda. Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros.

Quase todos têm muitos conhecidos, mas poucos amigos. Mesmo os nossos amigos podem se mostrar pouco amáveis ou mesmo infiéis. O que dizer de Judas? “Até  o meu amigo íntimo, em quem eu confiava, que comia do meu pão, levantou contra mim o calcanhar” (Sl 41:9). Inclusive o amigo mais dedicado pode faltar conosco quando mais precisamos dele. Pedro, Tiago e João cochilaram no jardim, quando deveriam estar orando e Pedro chegou a negar Jesus três vezes. Nossa amizade com os que nos cercam e com o Senhor são falhas, mas a amizade d’Ele para conosco é perfeita.

Não se deve porém, interpretar a palavra amigo  de maneira limitada, pois o termo grego significa “um amigo na corte”. Isso descreve o “circulo mais íntimo” ao redor de um rei ou imperador.  Os “amigos do rei”  desfrutavam de intimidade com o monarca e conheciam seus segredos, mas também eram seus súditos e deveriam obedecer a suas ordens. Não existe, portanto, conflito algum entre ser amigo e ser servo. Nas Escrituras, Abraão é chamado de “amigo de Deus” (2 Cr 20:7; Is 41:8; Tg 2:23), mas também ele é um servo do Senhor. Em Gênesis capítulo 18,  vemos Abraão tranquilo e parado, em comunhão com o Senhor. Então, o Senhor pergunta: “ Ocultarei a Abraão o que estou para fazer?”  Como amigo de Deus, Abraão partilhava dos segredos de Deus.  Foi esse tipo de relacionamento que Jesus descreveu quando chamou os discípulos de “amigos”. Sem dúvida, era um relacionamento de amor,  tanto por ele quanto uns pelos outros. Os “amigos do rei” não poderiam competir entre si pela atenção de seu soberano nem por benefícios no reino. Não faziam parte do “círculo mais íntimo” para se promover, mas para servir ao Rei.  Cristo é nosso Senhor (Jo 13:13, 16),  mas não nos trata como servos. Ele nos trata como amigos, se obedecermos a seus mandamentos. Abraão era amigo de Deus, pois obedecia a Deus (Gn 18:19).  Se temos amizade com o mundo, nossa relação com Deus será de inimizade (Tg 4:1-4).  Apesar de ser um homem salvo, Ló vivia em Sodoma e não foi chamado de amigo de Deus (2 Pe 2:7).  Deus revelou a Abraão o que planejava fazer com as cidades da planície e, assim, Abraão pôde interceder por Ló e por seus familiares.  Um dos maiores privilégios como amigos de Cristo é aprender a conhecer melhor a Deus e participar de seus segredos. Como disse  Oswald Sanders “Cada um escolhe a distância entre si e Deus”. Somos seus amigos e devemos escolher estar próximos do trono, ouvindo sua Palavra, desfrutando sua intimidade e obedecendo a suas ordens.  Como ramos, compartilhamos da vida de Cristo e damos frutos; como amigos, compartilhamos seu amor e damos frutos. Como ramos, somos podados pelo Pai; como amigos, somos instruídos pelo Filho, e sua Palavra controla nossa vida.

Nesta passagem, Jesus volta a tratar do privilégio da oração. Os amigos do rei certamente conversavam com seu soberano e lhe contavam suas dificuldades e necessidades. No tempo das monarquias, era considerado uma honra especial ser convidado a falar ao rei ou à  rainha; no entanto, os amigos de Jesus podem falar com Ele a qualquer momento. Para eles, o trono da graça é sempre acessível.  João 15:15, 16  resume o que significa ser amigo do Rei dos reis. É  uma experiência que conduz à  humildade, pois foi ele quem nos escolheu, não o contrário. É  bom sempre lembrar esse fato para que não nos  tornemos orgulhosos e arrogantes.  Jesus encerra essa parte de sua mensagem lembrando seus discípulos (e nós) do mandamento supremo: amar uns aos outros. O Novo Testamento tem várias declarações com “uns aos outros”, mas todas elas podem ser resumidas em “amar uns aos outros”. Jesus já havia dado esse mandamento aos onze apóstolos (Jo 13:34,35) e o repetiu mais duas vezes (Jo 15:12,17). Essa afirmação aparece ao longo das epístolas do Novo Testamento, especialmente na Primeira Epístola de João. Os amigos do Rei devem não apenas amar seu Soberano, mas também amar uns aos outros. O coração do Rei se enche de alegria ao ver seus amigos amando uns aos outros e trabalhando juntos para obedecer a suas ordens. Estes flashes do capítulo 15 de João começou na vinha e terminou na sala do trono! Quem não ama ao semelhante, como espera ter algum amor pelas pessoas perdidas do mundo? Quem não marchar com os irmãos como amigo do Rei, jamais formará uma frente unida contra o adversário. “Sem mim nada podeis fazer” (Jo 15:5).  Não ficamos simplesmente em desvantagem ou numa situação difícil. Ficamos absolutamente paralisados. Não somos  capazes de fazer coisa alguma!  Mas quem permanece em Cristo e fica perto do trono é capaz de fazer qualquer coisa  que o Rei ordenar!

Para refletir: Como cristãos, temos um grande privilégio: “Sermos amigos do Rei!” Contudo, essa amizade envolve intimidade. Lembrando o Salmo 25:14: “A intimidade do SENHOR é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança”. Você é daqueles que busca essa intimidade com Deus? Está sempre na sala do trono?

Que Deus te abençoe,

Pr. Natanael Gonçalves