Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo (1 Pedro 4:12).

Poderia parafrasear o texto acima, trocando o verbo estranhar pelo sentido que Strong dá ao mesmo, isto é: “surpreender, assombrar”. Assim sendo ficaria mais ou menos assim o início do versículo: “Amados, não se deixem surpreender…”. Louw Nida (Greek-English Lexicon of The New Testament) amplia um pouco mais o entendimento do verbo, vinculando-o à expressão “de boca aberta”. Com isto, podemos compreender que o estado daqueles irmãos era de verdadeira surpresa pelas provas que estavam passando. Seus sofrimentos não se harmonizavam com aquilo que conheciam de Deus, nem com a ideia da salvação. Como já vimos, a tribulação que estas igrejas suportavam era de uma intensidade notável, no entanto, o fogo da prova aumentaria ainda mais. Alguns deles chegariam a ser martirizados, outros sofreriam fisicamente, outros ainda, experimentariam perdas econômicas e, tudo, porque professavam a sua fé em Jesus e caminhavam em obediência a Ele. Aqueles irmãos (e também nós), sem dúvida, conheciam numerosas passagens bíblicas que falavam do amor e da proteção de Deus, sem mencionar muitos outros exemplos que eles mesmos conheciam a respeito da intervenção do Pai para salvar aos que estavam em risco de morte ou destruição.

Não obstante, às vezes Deus opta por não intervir quando pedimos, ou não o faz da maneira que esperamos. Mesmo sabendo que isto sucedeu com os cristãos do primeiro século e com uma infinidade de outros irmãos ao longo da história, não conseguimos compreender. Nós também nos surpreendemos. De fato, alguns versículos parecem aumentar a nossa confusão, pois mostram bênçãos que não indicam ser uma realidade, ou pelo menos, não, para nós. Por exemplo, na mesma epístola em que Pedro trata do fogo ardente das provas que afligiam os cristãos, ele também consola a seus rebanhos dizendo-lhes que “eram guardados pelo poder de Deus” (1 Pedro 1:5). Sem dúvida, torna-se muito difícil o apropriar-se de semelhante promessa, em meio ao sofrimento. Se Deus estava protegendo-os, por que sofriam tanto? Talvez a proteção de Deus não fosse o que eles imaginavam. Mesmo assim, tudo parecia não corresponder com o que entendiam sobre o poder de Deus, especialmente sobre o que sabiam do amor do Pai por eles. Possuíam bons motivos para estar surpresos e Pedro não os repreendeu por isso. Antes, o que ele fez, foi conduzi-los de forma mais profunda ao coração de Deus, para que pudessem ver o sofrimento a partir da perspectiva do Altíssimo. Embora estivessem surpresos pelo grau do sofrimento que enfrentavam, algo mais, no entanto, provocou espanto: o conselho de Pedro.

Uma das principais causas do assombro daquelas igrejas (e também de muitos nos dias de hoje) é que eles estavam caminhando em obediência a Deus. Não necessitavam ser repreendidos por sua falta de fé ou por algum pecado entre eles. Pedro o sabia, e se dirigiu com amor a seus “filhos obedientes” (1 Pedro 1:14), os quais foram regenerados por Deus (1 Pedro 1:3,23). Se por um lado nos faz bem sermos informados do que se passava com eles, por outro, aumenta mais a nossa confusão com relação ao sofrimento.

Como as Escrituras nos descrevem como “filhos de Deus”, é bastante natural esperarmos que Deus nos trate da mesma maneira como nós tratamos a nossos filhos a quem amamos e desejamos o melhor para eles. Em nosso entendimento, somos convictos de que Deus nunca provocaria, de propósito, uma catástrofe sobre os seus filhos fiéis, como tampouco nós o faríamos com os nossos. Deus é um Deus que ama, e se Ele faz sofrer um desses filhos obedientes que O ama, parece não fazer nenhum sentido.  No entanto, a Bíblia ensina que Deus não costuma agir do mesmo modo que nós, pois Seus pensamentos e caminhos são mais altos que os nossos (Isaías 55.9).

Dentro desse contexto, se faz necessário considerar outros fatores, particularmente aqueles que estão relacionados com o nosso adversário, o diabo. Por exemplo, em Jó 1 e 2, vemos que foi Satanás, e não Deus, quem assassinou os filhos de Jó e causou profunda dor física e emocional àquele servo do Altíssimo. Chamo a sua atenção para um detalhe interessante: em meio à sua dor, Jó atribuiu a Deus e não a Satanás, os sofrimentos que atravessava, pois ele ignorava o papel de Satanás em toda aquela aflição. O relato bíblico nos revela que os poderes satânicos podem agir de maneiras que desconhecemos, contudo, mesmo assim, nos deixa questões inquietantes. Por exemplo; Deus tinha o poder e a capacidade de deter o ataque do diabo, mas no caso de Jó, e em muitos outros também (do passado e de agora), Deus escolheu não o fazer.  Por que Deus permitiu que Satanás atacasse e saqueasse a quem Ele amava? Outra vez: isso não é coerente com o nosso conceito de Deus e nem com Sua promessa de proteger os Seus. Nós não permitiríamos ataques dessa natureza sobre os nossos filhos, especialmente se tivéssemos o poder de impedi-lo, e assim, não podemos compreender porque Deus o permite a Seus filhos. Isto nos causa mais que surpresa: nos deixa perplexos.

Finalizando, registro: mesmo que a sua mente contenha dúvidas como essas que abordei acima, saiba, porém, de uma coisa: Deus te ama! Ele nunca te abandonará! Continuaremos no próximo post. Não perca! O Senhor tem muito a ministrar ao nosso coração. Você será grandemente abençoado.

Pr. Natanael Gonçalves