Quando Pedro escreveu suas duas epístolas, possuía uma melhor compreensão a respeito das provas e das tentações que provocam o sofrimento. Como destaquei anteriormente, ocorreram situações críticas na vida de Pedro, as quais provocaram mudanças que o afetaram por toda a sua vida, particularmente os acontecimentos que ocorreram nos dias antecedentes à crucificação de Jesus. Na noite em que foi traído, Jesus advertiu a Pedro sobre o que ocorreria nas próximas horas, não em um futuro distante. Podemos ver esse registro em Lucas 22.31: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como trigo”.  Note que o Senhor o chama de Simão, nome que ele usava antes de iniciar a sua caminhada com Cristo. Ele o chamou assim, pois naquela noite, Pedro não seria a “rocha” de fé, mas uma pedra que afundaria naquele mar revolto. Este discípulo, havia sido criado como um judeu e, portanto, como tal, recebera ensinamentos. Mas, não apenas isso, ele também havia recebido ensinamentos dados pelo próprio Senhor Jesus durante aqueles três anos. Por que faço esse destaque? Porque ele deveria ter reconhecido a semelhança entre o pedido de Satanás para cirandar com ele e o pedido para provar a Jó. O diabo recebeu permissão para afligir a Jó, e agora, poderia peneirar Pedro da mesma maneira. Jó não foi advertido, Pedro sim. No entanto, ele subestimou tanto a severidade do ataque, como o ódio do agressor. O apóstolo estava prestes a aprender com a sua própria experiência.

No relato de João 13.36-38, Jesus informou a Pedro e aos demais que eles não eram autorizados a segui-Lo naquele instante, porém mais tarde O seguiriam. Foi nessa ocasião que Pedro ofereceu sua vida em lugar da de Jesus. Pelos comentários de Lucas, podemos imaginar que Pedro deve ter olhado para Jesus, mas não escutava ou não entendia o que Ele dizia. Aliás, os acontecimentos da última semana foram como um redemoinho que promovia desorientação aos discípulos. Estavam tão aturdidos que, aquilo que haviam visto e ouvido, somente contribuía para aumentar mais a confusão. A multidão havia adorado a Jesus na entrada triunfal, e Ele seguia falando aos discípulos sobre a sua morte iminente. Anunciou que a sua glória seria revelada, e que seus apóstolos fiéis reinariam com Ele, porém predisse a rejeição, os açoites e a crucificação. Falou com eles como amigos, mas também predisse que um deles o trairia. Todos os discípulos, excetuando talvez a Pedro, reprimiram a corrente do medo que lhes percorria, porque qualquer um deles podia ser aquele de quem Jesus havia falado. Em parte, pelo seu próprio temor, não identificaram a Judas como o traidor quando o Senhor o despediu da sua presença. 

A sós com os onze, Jesus voltou a reforçar o que lhes havia ensinado antes: “Vós sois os que tendes permanecido comigo nas minhas tentações” (Lucas 22.28). Penso que essa afirmação produziu um efeito tranquilizador, posto que Ele acabara de anunciar que um deles o trairia. Após Judas ter saído, Jesus fala aos seus discípulos sobre a sua iminente glorificação: “Agora, foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele; se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará nele mesmo; e glorificá-lo-á imediatamente” (João 13:31-32). No entanto, em meio às bênçãos prometidas e ao entusiasmo dos discípulos pela glória do reino que estava por chegar, juntamente com as suas recompensas, Jesus lhes declara algo que provoca perplexidade: eles não estão autorizados a segui-Lo naquele momento (João 13.33). Podiam entender o reino e as provas, mas não a glória e a separação; especialmente Pedro.

O que podemos aprender com o pequeno estudo de hoje? Bem, faça um exercício e pense nas expectativas que Pedro e os discípulos criaram em torno das promessas de Jesus. Por um acaso nós não fazemos o mesmo? Não obstante, os pensamentos e os caminhos do Pai são mais altos que os nossos (Isaías 55:9). Continuamos no próximo post. Não perca!

Pr. Natanael Gonçalves