boas obras

A Justiça pelas obras – (Fp 3:1-6)

A exortação (versos 1-3). A expressão “quanto ao mais”, no versículo 1, não indica que Paulo está preste a encerrar a carta, pois ele continua escrevendo. Antes, serve para dar início a uma nova sessão. Paulo já havia advertido os filipenses anteriormente, mas volta a alertá-los: “Acautelai-vos dos cães! Acautelai-vos dos maus obreiros! Acautelai-vos da falsa circuncisão!” A quem ele está se referindo nessa advertência tripla? A resposta remete à história do início da Igreja.
Desde o princípio, o evangelho foi dado “primeiramente a vós outros [os judeus]” (At 3:26; Rm 1:16), de modo que os sete primeiros capítulos do Livro de Atos falam somente de cristãos judeus ou de gentios prosélitos (At 2:10). Em Atos 8:5-25, a mensagem é levada a Samaria, o que não causou grande polêmica, uma vez que os samaritanos eram, pelos menos em parte, judeus. A discórdia começa quando Pedro leva o evangelho aos gentios em Atos 10. Ele é convocado, oficialmente, a prestar contas de suas atividades (At 11). Afinal, os gentios, em Atos 10, se converteram à fé cristã sem aderirem antes ao judaísmo, acontecimento inteiramente novo na Igreja. Pedro explicou que Deus o havia orientado a pregar aos gentios, e tudo indicava que a questão havia sido resolvida.
Mas essa trégua não durou muito tempo. Paulo foi enviado pelo Espírito Santo a ministrar especificamente aos gentios (At 13:1-3; 22:21). Pedro havia aberto a porta da fé aos gentios em Atos 10, e Paulo seguiu seu exemplo na primeira viagem missionária (At 14:26-28). Não tardou para que os cristãos judeus mais rígidos se opusessem ao ministério de Paulo e fossem a Antioquia ensinar que era necessário os gentios se sujeitarem às regras do judaísmo a fim de serem salvos (At 15:1). A assembleia em Jerusalém, descrita em Atos 15, foi realizada para tratar desse desentendimento. O resultado da assembleia foi a aprovação do ministério de Paulo e a vitória do evangelho da graça de Deus. Os gentios não precisavam tornar-se prosélitos a fim de se converterem ao cristianismo. Os dissidentes, porém, não se deram por satisfeitos. Depois do insucesso de sua oposição a Paulo em Antioquia e em Jerusalém, seguiram o apóstolo por toda parte tentando roubar seus convertidos e suas igrejas. Os estudiosos da Bíblia chamam esse grupo de falsos mestres, os quais tentavam misturar a Lei e a graça, de “judaizantes”. A Epístola aos Gálatas foi escrita, principalmente, para combater esses falsos ensinamentos. É a esse grupo de judaizantes que Paulo faz referência em Filipenses 3:1, 2, usando três termos para descrevê-los.

“Cães.” O judeu ortodoxo costumava chamar o gentio de “cão”, mas Paulo chama os judeus ortodoxos de “cães”! O objetivo do apóstolo não é insultar esses falsos mestres judeus, mas sim compará-los aos animais carniceiros que as pessoas decentes consideravam tão desprezíveis. Como cães, esses judaizantes mordiam os calcanhares de Paulo e o seguiam de um lugar para outro ladrando suas falsas doutrinas. Eram agitadores e infectavam as vítimas com ideias perigosas.
“Maus obreiros.” Esses homens ensinavam que a salvação do pecador dava-se pela fé mais as boas obras, especialmente as obras da Lei. Mas Paulo declara que suas “boas obras”, na verdade, são obras perversas, pois são realizadas pela carne (velha natureza), não pelo Espírito, e glorificam ao obreiro, não a Jesus Cristo. Efésios 2:8-10 e Tito 3:3-7 deixam claro que ninguém pode ser salvo por suas boas obras, mesmo que estas sejam de cunho religioso. As boas obras de um cristão constituem consequência de sua fé, não os alicerces de sua salvação.
“Falsa circuncisão.” No original, Paulo faz um jogo de palavras com o termo “circuncisão”. A palavra traduzida por “falsa circuncisão” significa, literalmente, “mutilação”. Os judaizantes acreditavam que a circuncisão era essencial para a salvação (At 15:1; Gl 6:12-18); mas Paulo afirma que a circuncisão em si não passa de mutilação! A verdadeira experiência cristã é uma circuncisão espiritual em Cristo (Cl 2:11), não requer uma operação física. A circuncisão, o batismo, a Ceia do Senhor, o dízimo, bem como qualquer outra prática religiosa, não são capazes de salvar o ser humano de seus pecados. Somente a fé em Jesus Cristo pode salvar.

Em contraste com os falsos cristãos, Paulo descreve os cristãos autênticos, como a “verdadeira circuncisão” (Rm 2:25-29). O cristão verdadeiro:
1) Adora a Deus no Espírito. Não depende das próprias boas obras, que são apenas obras da carne (Jo 4:19-24).
2) Se gloria em Jesus Cristo. Quem depende da religião costuma gloriar-se do que faz. O verdadeiro cristão não tem motivo algum para gloriar-se (Ef 2:8-10). Toda a sua glória está em Cristo! Em Lucas 18:9-14, Jesus propõe uma parábola que descreve essas duas atitudes opostas.
3) Não confia na carne. Paulo usa o termo “carne” para designar a “velha natureza” que recebemos em nosso nascimento. A Bíblia não tem coisa alguma positiva a dizer a respeito da “carne”, e, no entanto, quase todas as pessoas hoje se fiam inteiramente naquilo que elas próprias são capazes de fazer para agradar a Deus. A carne apenas corrompe os desígnios de Deus na terra (Gn 6:12). No que se refere à vida espiritual, não serve para coisa alguma (Jo 6:63) e não tem nada de bom em si (Rm 7:18). Portanto, o cristão verdadeiro não deve confiar na carne! Uma senhora discutia com seu pastor a questão da fé e das obras.

– Creio que alcançar o céu é como remar um barco – disse a mulher. – Um remo representa a fé, o outro, as obras. Quando usamos os dois juntos, conseguimos chegar aonde queremos. Quando usamos apenas um, nos movemos em círculos.

– Sua ilustração só tem um problema – respondeu o pastor. – Ninguém vai para o céu num barco a remo! Há somente uma “boa obra” que pode levar o pecador para o céu: a obra que Cristo consumou na cruz (Jo 7:1-4; 19:30; Hb 10:11-14).

No próximo post, antes de abordar a Justiça por meio da fé, penso que Paulo tem algo mais a ensinar-nos.

Para refletir: A Palavra de Deus nos mostra que há cristãos carnais. Há cristão simpatizante e comprometido. Que grupo você pertence?

Pr. Natanael Gonçalves