Quem é o Autor da Maldição? – Parte I 

 Acho apropriado para o desenvolvimento do tema, discutirmos esse ponto. Quem é o autor da maldição?

Rebecca Brown em seu Livro “Maldições não quebradas”, explica que as maldições podem ser divididas em categorias. Essas categorias são: as maldições dadas por Deus, as maldições feitas por Satanás e os seus subalternos com direito para fazê-lo, e as maldições feitas por Satanás sem direito para fazê-lo.(1) 

Gosto de pensar na soberania de Deus. Deus, o nosso Pai amado, domina sobre tudo e sobre todos. Ele detém o controle de todas as coisas. Nada pode passar desapercebido aos Seus olhos. Quando pensamos no seu poder e na sua soberania, bem como no seu amor pelo homem, isso nos dá segurança.

A crença na maldição respaldada por Satanás, largamente difundida no meio evangélico, advém do entendimento do dualismo, onde se cria que, no universo, existem duas forças iguais em poder, lutando entre si para dominar a espécie humana. Contudo, não encontra respaldo Bíblico. Não encontramos nenhum texto que descreva que Satanás tenha o poder autônomo de amaldiçoar alguém ou algo sem a devida autorização divina. O ensino bíblico é claro. Satanás, mesmo sendo um ser moral responsável e retendo ainda poderes inerentes aos anjos, nada mais é que uma das criaturas de Deus, e, portanto, infinitamente inferior a Ele em glória, poder e domínio. Mesmo que a Bíblia fale do reino de Satanás e de seu domínio nesse mundo (Ef 6.12; Lc 4.6; Jo 14.30) e advirta os crentes a que estejam alertas contra suas ciladas (Ef 6.11; 1 Pe 5.8; Tg 4.7), jamais lhe atribui um poder independente de Deus, ou liberdade plena para cumprir planos próprios, ou capacidade para frustrar os desígnios do Senhor. Assim, a Bíblia nos ensina que Satanás não pode atacar os filhos de Deus sem a permissão dele. Foi somente assim que pode atacar o fiel Jó (Jó 1.6-12; 2.1-7), incitar Davi a contar o número dos israelitas (1 Cr 21.1 com 2 Sm 24.1) e peneirar Pedro e demais discípulos (Lc 22.31-32). Os crentes têm a promessa divina de que Ele só permitirá a tentação prosseguir até o limite individual de cada um (1 Co 10.13), o que só faz sentido se o Senhor tiver pleno controle sobre a atividade satânica.  Num universo em estado de rebelião contra o seu santo e Soberano Criador, onde habitavam seres morais responsáveis, decaídos espiritual e moralmente, era perfeitamente concebível que Deus, em seu plano de redenção, interagisse com homens e anjos decaídos, usando-os conforme seu querer soberano.

Num excerto do tema “batalha espiritual” do Dr. Augustus Nicodemos, transcrevo abaixo, algumas considerações:

O Novo Testamento expõe de forma clara: Cristo já reina, mas ainda não liquidou literalmente todos os seus inimigos, como Satanás e a morte (1 Co 15.20-28; Hb 2.8). O Reino de Deus já está entre nós, mas ainda temos de orar “venha o Teu Reino”. Já estamos salvos da condenação do pecado, mas ainda não da sua presença e da morte que ele acarreta. Já temos as primícias do Espírito, já experimentamos os poderes do mundo vindouro, mas ainda não em sua plenitude (1 Co 13.9-13). Já estamos ressuscitados com Cristo, mas ainda não fisicamente. É à luz desta tensão que podemos entender que o diabo já foi vencido, despojado, limitado, e amarrado, mas ainda não aniquilado (cf. 1 Co 15.24). Procuremos entender claramente este ponto. Nos Evangelhos Satanás é representado como sendo um inimigo vencido. Os demônios são expulsos inexoravelmente. Eles se aproximam de Jesus, não como negociadores em pé de igualdade, mas como suplicantes (Mc 1.23-28; 5.1-20). O Senhor Jesus declara que Satanás está amarrado (Mc 3.27; Mt 12.29; Lc 11.21-22). Por outro lado, a destruição final de Satanás é vista como ainda no futuro (Mt 25.41). Esta tensão faz parte do ensino de Jesus acerca do Reino de Deus, que já é presente, mas ainda vindouro. (2) 

O conceito, principalmente Veterotestamentário, é que a maldição está diretamente ligada à quebra da aliança com Deus. O pensamento Bíblico é que o homem sofre as consequências de seu estado de rebeldia contra Deus. Assim, a maldição é um estado a que se chegou, decorrente da rebelião contra as leis de Deus. Talvez sejamos tentados a pensar que Satanás estava por detrás dos deuses antigos de forma que quando as imprecações eram pronunciadas, era Satanás que agia para que estas se cumprissem. No entanto, precisa-se atentar para dois fatos:

  1. A crença no poder autônomo das imprecações respaldadas por espíritos era própria das nações vizinhas de Israel e não era compartilhada pelos homens de Deus. 
  2. Isaías (Is 44: 9 ss.) argumenta que os deuses são sem valor (Is 41.29), não tem poder algum para livrar quem quer que seja; assim, não se pode crer que estes deuses tivessem a capacidade de amaldiçoar. 

É bem verdade que o diabo veio para matar roubar e destruir, mas entendemos que a sua esfera de ação está debaixo da soberania de Deus. O homem que está debaixo da maldição (ira de Deus), o ímpio, esse está preso nas garras de Satanás, uma vez que este é o seu senhor. Entendendo o governo de Deus sobre o universo, podemos dizer que Deus usa o diabo como instrumento para cumprir seus propósitos. No dizer de um servo de Deus no passado: “Deus usa o diabo como seu martelo”.

Continua no próximo post…  parte II 

(1)  – Maldições não quebradas – Rebecca Brow – pgs. 5 e 6

(2)  – Batalha Espiritual – Dr. Augusto Nicodemus Lopes