Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós. Limpai as mãos, pecadores; e, vós de duplo ânimo, purificai o coração (Tiago 4:8).

Ao concluir o comentário do verso oito, observo a exortação de Tiago dirigida àquela comunidade cristã. Não apenas chama-os de pecadores, mas também confirma que naquele meio, havia cristãos de duplo ânimo, ou seja, num sentido literal, cristãos de duas almas. O autor sagrado havia advertido anteriormente que um homem de duplo ânimo é inconstante em todos os seus caminhos e, por esta razão, não pode orar com fé, porque está vivendo de modo duplo, isto é, por um lado orando a Deus e por outro, vivendo na carne. Recordo que o coração dividido foi uma das manifestações mais lamentáveis da história de Israel. Basta lembrar o que o profeta Elias disse ao povo: Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; se é Baal, segui-o (1 Reis 18:21). Aqueles cristãos a quem Tiago escreveu são inconstantes e, em pessoas assim, não se pode confiar. Em algumas ocasiões, seguiam a Deus e em outras, seguiam o mundo. A solução para eles se encontra no fim do versículo, isto é, “purificar o coração”. O verbo envolve tanto uma ordem como também uma ação que deve ser consumada plenamente e isto implica na limpeza total de toda contaminação do coração. No contexto judaico, os leitores pensariam no dia da expiação, o qual simbolizava a expiação da culpa e a purificação do coração. Portanto, compreendiam perfeitamente a exortação. No texto, tudo está conectado. Por exemplo, já comentamos anteriormente sobre as mãos limpas, mas observe que não podiam elevar mãos limpas a Deus sem, contudo, haver limpado primeiramente o coração (1 João 1:9). Só os limpos de coração verão a Deus (Mateus 5:8). A limpeza de coração está intimamente relacionada com a comunhão que permite ver a Deus. Como Deus é santo, apenas aquele que é limpo de mãos e puro de coração, que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente (Salmo 24:4), é que pode estar diante do Pai.

Coração limpo e puro é aquele que não está contaminado com o pecado, coisa própria de quem foi chamado a viver a verdadeira vida cristã.  Não se trata de um coração que não peque, senão de um coração onde não há hipocrisia, ou seja, duas formas de vida. Aqueles cristãos estavam acostumados ao sistema farisaico, o qual descansava em uma santidade aparente ou piedade externa. Se esforçavam para demostrar uma aparência imaculada, especialmente quanto ao cumprimento literal das demandas bíblicas, no entanto, seus corações estavam contaminados pela hipocrisia de seus comportamentos. Aqueles, aparentavam o que realmente não eram. Veja, Davi pediu a Deus um coração que pudesse estar em sintonia com o Altíssimo e fazer a Sua vontade (Salmo 51:10). E nós? Temos o mesmo desejo de Davi? Será que o Espírito Santo não está chamando a atenção do seu povo nos dias de hoje? Quantos não estão vivendo como aqueles cristãos? A propósito da celebração do aniversário da Reforma, a igreja do século XXI precisa de uma reforma também. Precisa compreender que o propósito de Deus é ter uma relação íntima com o seu povo. Necessita ensinar aos cristãos que esta relação deve ser cotidiana e que a vontade do Pai é transformar os seus filhos na mesma imagem do Senhor (2 Coríntios 3:18). Finalizando lembro que o escritor aos Hebreus afirmou que “sem santificação, ninguém verá a Deus” (Hebreus 12:14). O sentido da palavra santificação, é o mesmo de purificação ou limpeza. Isto tem a ver com a separação de tudo que é pecaminoso e, por outro lado, para o cristão, não se trata de uma opção alternativa, mas de um estilo de vida, algo próprio de quem nasceu de novo.

Momento de Reflexão: Muitos estão enganando a si mesmos. Dizem que amam a Deus, mas não se purificam. Estão vivendo de modo duplo conforme vemos acima. Quanto a esses, não poderão ver a Deus. Pense a respeito!

No amor de Cristo Jesus,

Pr. Natanael Gonçalves