Eis que o salário dos trabalhadores que ceifaram os vossos campos e que por vós foi retido com fraude está clamando; e os clamores dos ceifeiros penetraram até aos ouvidos do Senhor dos Exércitos (Tiago 5:4).

Eis, é a interjeição que Tiago usa no começo do versículo acima. Ele assim o faz para chamar a atenção dos ricos que fraudavam aqueles trabalhadores. O termo carrega o sentido de “olhe, ouça, preste atenção”, o qual o autor usa para animar o discurso, com vistas a despertar a atenção do leitor. O objetivo é que eles considerem o que o escritor vai expor a seguir, isto é, à sua denúncia que consiste em três pecados que os ricos estavam cometendo. Neste texto, comento o primeiro deles que é o fato de reter, com fraude, o salário dos trabalhadores. No caso em questão, se tratava de obreiros rurais contratados pelos donos de propriedades agrícolas. O texto aponta para essa atividade quando observamos a frase: trabalhadores que ceifaram os vossos campos. Naqueles tempos, os homens ficavam nas praças esperando ser contratados pelos donos das plantações. O contratado aceitava uma quantia diária que devia ser paga no fim do dia, e o compromisso era pessoal entre o dono da terra e o trabalhador. Nem sempre se pagava o mesmo a todos os obreiros, já que dependia do acordo que faziam. Jesus, em Mateus 20:1-16, ilustra uma parábola utilizando desse costume existente naqueles dias.

A lei divina estabelecia o pagamento pontual dos salários, considerando como um delito se alguém o retivesse: Não oprimirás o teu próximo, nem o roubarás; a paga do jornaleiro não ficará contigo até pela manhã (Levítico 19:13). Em Deuteronômio 24:14-15, vemos Deus condenado tais procedimentos. Aqueles ricos judeus eram conhecedores do mandamento, não obstante, estavam desprezando o que Deus havia estabelecido. O Espírito Santo, por meio de Tiago, claramente enfatiza a violação, posto que não se tratava da demora do pagamento, mas da retenção do mesmo, com fraude. Os ricos, a quem o autor se refere, estavam ficando com o que correspondia ao pagamento do esforço feito pelos trabalhadores em seus campos. Esta situação de injustiça provocava o clamor dos ceifeiros, o qual penetrava nos ouvidos do Senhor dos Exércitos. Além disso, o autor afirma que o fato do salário ser retido com fraude, também clamava a Deus. O primeiro crime registrado no Antigo Testamento, nos mostra a mesma situação, pois o próprio Deus, em Gênesis 4:10, diz a Caim que o sangue de Abel clamava a Ele. Você já parou para pensar que as injustiças cometidas estão diante de Deus?

Aquele clamor angustiante de quem não recebia o que lhe pertencia por direito de trabalho, e por isso, estavam passando por penúrias, se faz ouvir diante do Senhor. Esse era um delito que Deus não podia deixar passar. Senhor dos Exércitos é um título usado com frequência no Antigo Testamento, para referir-se a Deus. Esse título dá ênfase ao Seu poder e sugere a ideia d’Aquele que se opõe contra os soberbos, em defesa dos fracos e débeis. Portanto, não se trata de um mero juiz da terra, mas do onipotente Deus que governa em justiça. O Senhor, desde as suas moradas, é pai dos órfãos e defensor das viúvas (Salmo 68:5), ou seja, aqueles que são indefesos na terra, têm o Poderoso defensor no céu. Da mesma maneira, Deus se colocava a favor daqueles que estavam sendo defraudados e contra os ricos opressores. A opressão contra o indefeso produz a ação de Deus contra o opressor:  porque o seu Redentor é forte; ele pleiteará a sua causa contra ti (Provérbios 23:11).

Momento de Reflexão: Tiago escreveu a sua carta a uma comunidade de judeus convertidos e que estavam dispersos (Tiago 1:1). Esses ricos pertenciam a essa comunidade, no entanto, não sabemos se, de fato, eram convertidos. Entretanto, uma coisa sabemos: eles conheciam a Palavra de Deus. Isso é um fator preponderante. Explico: Penso que as injustiças cometidas pelos ímpios, muitas vezes, são toleradas por Deus, mas aquelas cometidas por aqueles que se dizem cristãos conhecedores do evangelho, estão subindo diante de Deus. Esses cristãos se esquecem que o nosso Deus é um fogo consumidor (Hebreus 12:29) e justo Juiz (Salmo 7:11; Jeremias 11:20).

Naquele que vê todas as coisas (Hebreus 4:13),

Pr. Natanael Gonçalves